A incoerência e a indefinição
Sempre neguei veemente ser um saudosista e, pelo menos até pouco tempo atrás, estava convicto disto. Admito, como já fiz anteriormente, o caráter um tanto quanto nostálgico da minha personalidade, mas evitava ao máximo supervalorizar o passado. Infelizmente, tal atitude tem se tornado cada vez mais difícil, visto que a cada dia sou bombardeado por mais e mais vistosos expoentes do extraordinário mundo novo que, ao que parece, está entrando na “era da alta definição”.
Com o perdão da minha nada pudica irrelevância do ponto de vista mundial, sugiro que passemos a chamar a era da “alta definição” de era da “extrema indefinição”. Naturalmente, não demorará até que alguém venha a perguntar o motivo de tal denominação. De fato, posso parecer incoerente em meio a tantos televisores de plasma vendidos por preços cada vez mais acessíveis, caixas de som capazes de reproduzir o som sutil de cada gota de chuva em canais separados e câmeras digitais de resolução fantástica. Quando digo definição, não é a isso que me refiro – pelo menos, não diretamente.
A definição e o realismo das cores, assim como o som envolvente e sem chiados, me deslumbram e me agradam, é verdade. Mas não evitam que paire sobre minha cabeça a dúvida pertinente: por mais perfeita que seja a emulação, até que ponto ela é satisfatória? Exemplificando: por mais definida e viva que a seja a vista da paisagem mostrada pela televisão, por mais que o “cinema caseiro” possa ser envolvente e virtualmente transportar o telespectador a qualquer lugar do tempo e do espaço, serão tais avanços tecnológicos tão eficientes a ponto de substituir a presença física, moldada pelos sentidos e convertida em emoção pura e simples?
Ninguém há de discordar que é maravilhoso poder ouvir horas de música em qualidade digital em qualquer lugar com um pequeno e finíssimo aparelho. Ainda assim, duvido que alguém prefira tal aparelho à oportunidade de ouvir a melodia ao vivo. Pode parecer poético e piegas para alguns – e talvez realmente seja, não me importo. Não há, a meu ver, fotografia ou filmagem que substitua uma ida a determinado lugar. Assim como a palavra “abraços” ao final de uma mensagem pode até conter o mesmo valor sentimental, mas não o mesmo calor daqueles oferecidos pelos braços humanos – não obstante o fato de que é mais fácil ser falso sem olhar diretamente nos olhos do destinatário.
Eu gosto da tecnologia e do progresso. O foco não deve (ou, pelo menos, não deveria) ser até que ponto eles são necessários, pois tenho consciência de que se a humanidade tivesse sido guiada unicamente por suas necessidades primordiais, ainda estaríamos grunhindo. Proponho, mesmo assim, o esclarecimento de alguns pontos básicos, a fim de saber com precisão até que ponto o “progresso” é realmente benéfico e saudável.
Até que ponto, exatamente, queremos chegar? Torço para que minhas impressões não muito otimistas estejam equivocadas, do contrário poderemos um dia viver confortavelmente sem nos levantarmos da cama – talvez até sem estarmos acordados. Precisamos mesmo de tantos arquivos, tantas telas, tantos chips? Por melhores que sejam, ando um pouco enjoado deles.
Talvez eu esteja apenas perdido no meio de tanta coisa, com pensamentos indefinidos e lentos demais. Pode ser. Mas se os até os renomados físicos demoraram a definir o conceito final de tempo, meu ritmo natural não pode ser totalmente condenado. É muitas vezes ele que me mantém humano e não uma emulação orgânica de máquina produtiva e perfeitamente eficiente.
Já dizia minha velha cafeteira: muita cafeína na corrente sangüínea, falta de tempero na vida real.
Tem mais, mas por hoje chega, às 21h32
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